Thursday, July 27, 2006

 

"Anhangu-açu-papá"

O sertanista chefe da expedição aproximou-se cauteloso, fazendo pssiiiuuu...!, ordenando que seus auxiliares ficassem quietos. Do outro lado das árvores os índios, ariscos, brechavam por entre a folhagem; era a primeira vez que viam aquelas criaturas estranhas: enormes macacos brancos, vestindo tangas esquisitas e carregando uns troços nas costas. O sertanista chefe adiantou-se; os índios recuaram uns passos. O explorador parou, colocou uns retalhos de tecido no chão e voltou para onde o seu grupo se concentrava.

Um índio que parecia ser o cacique fez sinal para uma mulher índia. Ela aproximou-se do despacho e, com a ponta dos dedos, tocou os retalhos deixados pelo chefe dos "animais esquisitos". Certificou-se de que não se tratava de seres vivos, pegou os cortes de tecido e retornou para junto dos seus. Entregou os retalhos ao cacique, que os passou para o pajé e fez sinal ordenando que este analisasse o material. O pajé deu uma mordida numa peça vermelha, mastigou, cuspiu e balançou a cabeça negativamente.

Os membros da expedição assistiam a tudo usando binóculos. Os índios estavam cada vez mais intrigados com aquele tipo de animal exótico capaz de ejetar os olhos um palmo adiante do rosto.

As tentativas de aproximação dos brancos com a tribo desconhecida duraram uma semana: o chefe da expedição ia até o mesmo local, deixava alguma coisa que pudesse atrair o interesse dos índios e aguardava. O resultado era sempre o mesmo: uma mulher pegava as bugigangas e o pajé analisava o material, mas nunca os aprovava; fosse pela insipidez, ou pelo mau gosto, como no caso do hambúrguer com fritas que deixaram no último dia.

O sertanista chefe resolveu apelar: instalou o seu leptop à bateria no local onde costumava deixar os presentes, inseriu um DVD e deixou o aparelho exibindo um documentário sobre tribos da Amazônia. A mulher índia se aproximou, mas dessa vez não tocou naquela coisa. Ela acenou para os seus companheiros, chamando-os. Todos se aproximaram. Ficaram alguns minutos observando o aparelho e logo estavam sentados assistindo à exibição do programa.

Com os devidos cuidados para não assustá-los, pé ante pé, o sertanista se aproximou dos silvícolas, ajeitou um cantinho e sentou-se ao lado do cacique. Os demais membros da expedição também se aproximaram e se misturaram aos índios. Ficaram ali, todos em silêncio. O programa terminou. O sertanista chefe foi lá e trocou o DVD, agora exibia um vídeo clip da Madona. Considerando os meneios que os homens da tribo faziam ao ritmo das músicas, os expedicionários devem ter concluído que este programa agradou mais que o primeiro.

No final da tarde o sertanista já havia feito várias exibições com o leptop, instalara um minitelevisor e ligara o rádio. Porém, quando começou a anoitecer, o cacique falou qualquer coisa para os membros da tribo. Todos se levantaram e se encaminharam para a trilha de retorno à aldeia. O sertanista chamou-os de volta e, gesticulando, insistiu que ficassem mais um pouco, queria lhes mostrar mais algumas coisas. Entretanto as gesticulações do cacique indicavam que não estavam interessados em mais nada. O sertanista ofereceu espelhinhos, colares, apitos, garrafas, canetas, lanternas... Nada interessou ao cacique. O leptop, "É seu, tome, pode levar". O cacique recusou-o. O chefe tentou lhe dar o minitelevisor, mas o cacique não se interessou por nada.

O velho Raimundo, ex-seringueiro, era um dos carregadores da expedição. Ele estava enfadado, recostado a uma árvore e acabara de enrolar um cigarro de palha. Deu a lambida final no baseado caipira e riscou o fósforo para acendê-lo.

— Anhangu-açu-papá! — gritou o cacique quando viu a ponta do palito inflamar-se produzindo aquela chama espetacular.

Todos da tribo se voltaram para o velho Raimundo, que se assustou vendo os índios se aproximarem dele. Ainda pensou em correr, mas entendeu que seria presa fácil para quem conhece tudo sobre floresta.

Em uníssono, agora toda a tribo gritava:

— Anhangu-açu-papá! Anhangu-açu-papá! Anhangu-açu-papá!

E, para surpresa dos expedicionários, quatro dos índios mais fortes ergueram o velho Raimundo e o conduziram floresta adentro, ovacionando-o:

— Anhangu-açu-papá! Anhangu-açu-papá! Anhangu-açu-papá!

Não se sabe bem o que quer dizer "Anhangu-açu-papá"; mas, no dia seguinte, o velho Raimundo casou-se com as cinco mais belas virgens da tribo e passou a morar na oca mais confortável da aldeia, gozando de privilégios antes só concedidos ao pajé, que fora rebaixado à condição de auxiliar de feitiçaria do Anhangu-açu-papá. Seja lá o que isso venha a significar.


Moral: A quem precisa de cisternas, escolas e crédito para a agricultura familiar, não adianta oferecer telefonia celular.


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Comments:
muito bom, fernando.
 
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